CASA COR: INSTIGANDO OS SENTIDOS

Uma coluna sobre arquitetura e interiores não poderia deixar de falar sobre a maior mostra de decoração do país e também presente no calendário dos principais eventos internacionais do setor: a Casa Cor, de São Paulo.

Visitei a Casa Cor deste ano duas vezes. Vi e revi tudo com cuidado: um dia dedicado à observação e conhecimento das novas tendências e dos novos produtos, assim como de detalhes técnicos em geral, desde tonalidades e texturas de paredes até lançamentos de cerâmicas e revestimentos; outro para captar harmonias e sutilezas dos ambientes criados especialmente para essa mostra.

Após alguma reflexão sobre toda a informação a que estive exposta, fico com a estranha sensação de que simplesmente discorrer sobre tudo o que lá vi seria de pouca ou nenhuma utilidade prática para os leitores desta coluna. A explicação parece estar no fato de que visitar uma mostra do tipo Casa Cor é algo muito parecido com assistir a um desfile de moda do tipo SP Fashion Week. Nesses dois eventos, estilistas arquitetos, decoradores e artistas concebem, materializam e lançam conceitos.

Muito dos trabalhos apresentados nessas ocasiões tem formas e conteúdos que nos transmitem sensações que podem variar da incompreensão ao desconforto, quando procuramos transferir as coisas para o nosso dia-a-dia. No entanto, o resultado pretendido por esses estilistas, arquitetos, decoradores e artistas é que o público-alvo consiga traduzir e interpretar esses conceitos, aproveitando deles alguns detalhes, mais ou menos sensatamente, em sua vida pessoal. Vale dizer, pretendem uma reeducação da nossa percepção normalmente orientada para a interpretação linear de eventos, geradora de relações recorrentes de causa e efeito repetitivas. A idéia é instigar (os) sentidos.

Por outro lado, fabricantes e fornecedores tentam ultrapassar limites e travam lutas homéricas com os concorrentes na hora de expor os seus produtos, buscando a cada vez mais dispersa atenção dos clientes: a ordem é liderar o mercado e seduzir (e fidelizar) os profissionais que vão vender a sua marca.

Aí é que normalmente a confusão se forma: empolgada com a exuberância dos eventos e pela pressão de seu irretocável marketing, muita gente acaba levando para as ruas e para casa o exagero dos desfiles e das exposições.

Bom senso e foco são fundamentais, tanto em moda quanto em decoração. Penso que nenhuma das prezadas leitoras imaginou-se, seriamente, no supermercado vestida apenas com aquela maravilhosa blusa esvoaçante, transparente sobre o corpo, que Gisele Bündchen usou nas passarelas, na semana passada.

O mesmo vale para a escolha de peças e estilos para nossa casa, do contrário corre-se o risco de se gastar uma fortuna e transformá-la numa colcha de retalhos (a menos que seja esse o efeito artístico pretendido).

De tudo o que foi visto, podemos aproveitar produtivamente o seguinte: 1. uma das grandes tendências deste ano é o uso de materiais rústicos, tais como madeira, pedra, tijolos aparentes e até pau-a-pique, seguindo uma proposta ecológica.

2. tendência importante é também a da construção de caminhos d´água em jardins e praças, à semelhança dos existentes no estilo espanhol mediterrâneo dos jardins do Castelo de Alhambra, em Granada, valorizando a vida ao ar livre e o contato com a natureza. A preocupação com o bem-estar acaba por influenciar espaços, transformando-os em verdadeiros oásis de relaxamento e entrenimento.

3. outra tendência é a da mistura de estilos: peças clássicas com modernas, obras de arte antigas com contemporâneas, tudo bem dosado e combinado.

Claro, acertar na mistura de estilos, mesclar móveis com acessórios, paredes coloridas revestidas com tecidos diversos, enfim, o uso adequado do espaço requer, além de bom gosto e intuição, o olhar treinado de um profissional da área.

Apenas para registro: recebi e-mails de leitores que foram à Casa Cor e estranharam o espaço do arquiteto Sig Bergamin. A polêmica está em que Bergamin criou um apartamento de luxo, totalmente inspirado na cultura japonesa. Abusando do vermelho e preto em todos os ambientes, da cozinha ao heliponto, Bergamin apresentou a força e a bravura dos samurais nas estampas das paredes; cerâmicas raras valorizaram os ambientes, inclusive os banheiros; cordões de seda negra amarraram as cortinas e arremataram os tapetes; cenas de batalhas sangrentas estamparam a maioria das paredes.

Bergamin é um profissional com larga experiência no Brasil e no exterior, atrevido nas formas e arrojado nos conteúdos que concebe. Usou o seu espaço com extrema competência. Causou impacto, polemizou, instigou percepções e consciências adormecidas. Mas em nenhum momento tentou dizer aos visitantes: “decorem sua casa assim!”, não era essa a mensagem que ele queria ver transmitida. Com toda a certeza, Bergamin pretendia, no mínimo, dizer “é preciso mudar para compreender a mudança”. Se assim foi, disse-o com enorme competência. Ao retratar o espírito dos famosos lutadores japoneses, o mais prestigiado expositor da mostra deste ano tentou atrair o público para novas formas de pensar e organizar, através de seu trabalho.

Espero ter respondido, de forma geral, a todos os emails relativos a esse assunto, a mim enviados.

Até a próxima semana.

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